Tenho pendências comigo mesmo. Dívidas internas, por assim dizer.
Esclareço que não estou me referindo a grandes compromissos, do tipo “ficar rico”, mas sim a atividades triviais que, por algum motivo, deixei para fazer em um outro momento. E nunca fiz.
Estou falando do livro que peguei emprestado e nunca li. Da música que eu nunca aprendi a tocar. Das fotografias que eu nunca organizei. Do telefonema para o primo, para marcar um almoço num domingo desses…
Tem muito mais.
Não são preocupações de tempo integral, que me tirem o sono e causem desespero, longe disso. É mais uma inquietação, um incômodo. Que persiste. E que infla com o passar do tempo.
Tomemos O Físico, de Noah Gordon, por exemplo, que o Valente me emprestou. O Físico ficou me encarando da estante por quase dez anos. No começo era um convite, “vamos lá garotão, me leia, eu sou legal”. Depois virou um desafio, “me leia covarde, tá com medinho de mim?”, mas como eu reiteradamente recusava, se transformou em um apelo: “ou me lê ou me devolve, mas por favor não me deixe aqui mofando”.
Quase dez anos.
Até que, em uma linda manhã ensolarada dessas, do nada abri o livro pela primeira vez. E comecei a ler, e li com gosto e fúria, não somente por receio de que acabasse o efeito do doping de ânimo e coragem, mas principalmente porque – surpresa! – o livro é ótimo.
Ao final, várias sensações se misturavam. Algumas relacionadas diretamente com o prazer da leitura em si, mas outros sentimentos eram, definitivamente, mais abrangentes.
Como a glória da autosuperação.
Pode soar um tanto quanto forte falar isso, afinal é só um livro que eu finalmente li. Que glória há nisso?
Mas existem coisas na vida que são assim mesmo: pequenas aos olhos dos outros, imensas pra gente. Parece que existem barreiras invisíveis que nos impedem de fazer coisas – aparentemente – simples.
Como ligar para sua tia no aniversário dela. Como emoldurar aquela foto. Como consertar o rejunte do banheiro. Como pedir desculpas.
Ou como ler um livro.
A primeira e a melhor das vitórias é a conquista de si mesmo.
– Platão
P.S. Fico devendo uma resenha.