Tenho uma tradição compartilhada com um grupo de amigos, que se renova todo dia 31 de dezembro. À ocasião, fazemos, entre umas e outras, um balanço do ano que está terminando.
Lembro que no balanço de 2007 relatei algo inédito: “terminei o ano 2kg mais leve do que iniciei”. Ora, durante toda minha vida só havia engordado, de forma que terminar o ano mais leve representava muita coisa: era um mudança na direção no movimento. Ali, ao meu ver, havia sido dado um duro golpe na inércia.
Mas, sabemos, a inércia é uma força muito poderosa: em 2008 o movimento não se manteve e voltei a engordar.
Tratei de encarar essa recaída como uma espécie de força centrípeta me empurrando para fora da curva da mudança de direção: quanto mais rápido você faz a curva, maior é a força. Tudo, bem, lição aprendida.
Em 2009 decidi fazer um monitoramento detalhado: comprei uma balança e me pesei semanalmente, registrando tudo em uma planilha. Fiz isso ao longo do ano, e o resultado pode ser visto no gráfico que segue:

variação de peso em 2009
Não vou fazer uma análise profunda sobre os impactos das festas de aniversário e afins. Basta dizer que foi uma experiência muito interessante, na medida em que serviu para que eu pudesse me policiar melhor, não em um sentido de rigidez ou paranóia, mas sim para que eu pudesse me manter nos trilhos, sem ter que me perguntar depois “como é que eu deixei chegar a esse ponto?”.
E, como vocês podem ver, em 2009 eu emagreci. Ou melhor, perdi peso.
Ou fiquei “mais leve”.
No balanço daquele ano, eu pude dizer que, pela segunda vez na vida, eu terminava um ano “mais leve” do que havia começado. Aquela sensação era legal.
Mas minha própria frase continuou ecoando dentro da cabeça. Seria verdade aquilo? Quero dizer, eu estava mesmo “mais leve”? Falando de massa corpórea, sem dúvida era verdade: eu estivera engordando ano após ano. Estava mais leve do ponto de vista físico.
Por outro lado, ao mesmo tempo passei a me questionar se, ao longo da vida, eu não estaria ficando mais pesado também de outras formas.
Talvez a minha preocupação com meu peso físico fosse tão somente o ponto de partida para questionamentos mais abrangentes relativos ao meu estilo de vida e ao que poderíamos chamar de “leve” ou “pesado” em um sentido mais, digamos, abstrato.
Talvez a gente acabe acumulando muita coisa dentro da cabeça. Muitas preocupações, muitos desejos, muitos planos, muitas pendências, muitos sonhos, muitas frustrações. Cada vez mais.

Atlas
Sempre ouvi dizer que, pra emagrecer, você tem que gastar mais do ganha. Em outras palavras, exercite-se e/ou feche a boca. Mas e quanto ao outro lado? Será que isso vale também no campo do nosso equilíbrio psicoemocional? Dá pra se “exercitar”, nesse sentido? Como? Será que eu preciso fazer uma “dieta metafísica”?
Será viagem?
Mas já era tarde. Quando dei por mim, já estava viajando.
(to be continued…)