“Em outra ocasião durante minha primeira temporada com os Pirahãs, eu me senti suficientemente confortável com a língua deles a ponto de contar minha própria história sobre como aceitei Jesus como meu salvador. Essa é uma prática comum entre cristãos evangélicos, chamada de ‘dar seu testemunho’. A idéia é que quanto pior fosse sua vida antes de aceitar Jesus, maior o milagre da sua salvação e maiores são as razões para os não-crentes na platéia aceitarem Jesus também.
Era noite, logo após o jantar da minha família, por volta das 7 horas. Ainda estávamos refrescados pelo banho no Rio Maici. Era nessa hora que fazíamos café para quem quisesse sentar conosco e conversar. Nessas ocasiões eu costumava falar sobre minha fé em Deus e porque eu acreditava que os Pirahãs deveriar crer em Deus também, assim como eu. Como os Pirahãs não tinham uma palavra para Deus, eu usava um termo que Steve Sheldon tinha sugerido para mim, Baíxi Hioóxio (o Pai lá de cima).
Eu disse que nosso pai lá de cima mudou minha vida para melhor. ‘No passado’, eu disse, ‘eu bebia como os Pirahãs. Eu tinha várias mulheres (ok, exagerei um pouco), e eu era infeliz. Então o pai lá de cima entrou no meu coração e me fez feliz e mudou minha vida para melhor.’ Eu não sabia se todos aqueles conceitos, metáforas e nomes que eu estava inventando na hora faziam qualquer sentido para os Pirahãs. Faziam para mim. Nessa noite, eu decidi contar para eles algo muito pessoal – algo que eu achava que os faria entender o quanto Deus pode ser importante em nossas vidas. Então eu contei para os Pirahãs que minha madrasta havia se suicidado, e também a forma como isso me levou a Jesus e como minha vida melhorou depois que eu parei de beber e usar drogas e aceitei Jesus na minha vida. Eu contei isso de uma forma muito séria.
Quando eu terminei, os Pirahãs explodiram em gargalhadas. Eu não esperava por algo assim. Eu estava acostumado a reações do tipo ‘Glória a Deus!’ e com um público genuinamente impressionado pelas dificuldades que eu havia atravessado e como Deus havia me resgatado.
‘Por que vocês estão rindo?’, perguntei.
‘Ela se matou? Ha ha ha que burra! Pirahãs não se matam.’ foi a resposta.”
Trecho de “Don’t Sleep, There Are Snakes”, de Daniel Everett, em tradução livre feita por mim mesmo.
Infelizmente esse livro ainda não tem edição em português porque, segundo o próprio autor, as editoras nacionais alegam que não há público.

